Violência doméstica vai muito além da agressão física, alerta coordenadora da Patrulha Maria da Penha no Paraná

Violência psicológica, moral, patrimonial e sexual também deixam marcas profundas nas vítimas

A violência doméstica nem sempre se manifesta por meio de agressões físicas. Embora tapas, empurrões e outras formas de violência corporal sejam facilmente reconhecidas pela sociedade, diversos outros tipos de abuso podem ocorrer de forma silenciosa e acabar sendo normalizados dentro dos relacionamentos. Esse foi o alerta feito pela major da Polícia Militar e coordenadora estadual da Patrulha Maria da Penha no Paraná, Carolina Pauleto Ferraz Zancan, ao explicar como uma mulher pode identificar que está vivendo uma situação de violência doméstica.

Segundo a oficial, ela prefere utilizar o termo “violência” de maneira ampla justamente porque existem diferentes formas de agressão previstas na legislação e que, muitas vezes, são até mais graves do que a violência física.  “A violência física é mais fácil de identificar. Quando há um tapa, um empurrão ou um puxão de cabelo, rapidamente se percebe que aquilo não deveria estar acontecendo”, explicou.

No entanto, Carolina destaca que há outros tipos de violência que acabam sendo incorporados ao cotidiano familiar, tornando-se invisíveis para muitas vítimas. Entre elas estão a violência psicológica, moral, patrimonial, sexual e a violência vicária.

Violência vicária utiliza os filhos como instrumento para atingir a mulher

Ao abordar a violência vicária, a coordenadora fez questão de esclarecer que não se trata de um fenômeno recente. Segundo ela, esse tipo de violência sempre existiu e consiste na utilização de pessoas próximas da vítima — especialmente os filhos — como forma de vingança contra a mulher. De acordo com a major, ao longo dos anos inúmeros relatos demonstram que agressores utilizam crianças e demais familiares para causar sofrimento emocional, constranger e atingir psicologicamente suas companheiras ou ex-companheiras.

Violência psicológica destrói a autoestima da vítima

Outro ponto enfatizado foi a violência psicológica, caracterizada por humilhações constantes, ofensas, menosprezo e tentativas de controlar a vida da vítima. Segundo Carolina Zancan, esse tipo de agressão acontece quando o agressor impede que a mulher realize atividades que deseja, afasta-a dos amigos, da família e da rede de apoio, fazendo com que ela fique cada vez mais isolada.Além disso, o agressor passa a desacreditar a capacidade da vítima, humilhando-a diante de outras pessoas e sabotando sua autoestima. Com o passar do tempo, a mulher pode acreditar que não é capaz de deixar o relacionamento ou até mesmo imaginar que merece viver naquela situação. A coordenadora alertou que relacionamentos abusivos nem sempre apresentam episódios de agressão física. Ela citou casos extremamente graves que terminaram em feminicídio, embora as vítimas nunca tivessem sofrido um único tapa durante todo o relacionamento.Por isso, reforçou a importância de reconhecer os sinais de abuso antes que a violência evolua.

Rede de proteção é essencial para romper o ciclo da violência

Durante a entrevista, Carolina também destacou a importância da integração entre os diversos órgãos que atuam no enfrentamento da violência contra a mulher. Ela explicou que o trabalho desenvolvido atualmente faz parte de uma ação integrada da Polícia Militar em todo o Paraná, voltada tanto ao atendimento das ocorrências quanto à prevenção. Entre os objetivos estão orientar as mulheres sobre os diferentes tipos de violência, explicar como funciona o ciclo da violência e apresentar toda a rede de proteção disponível.

Segundo ela, essa rede envolve diversos órgãos públicos e instituições, entre eles:

  • Polícia Militar;
  • Polícia Civil;
  • Ministério Público;
  • Polícia Judiciária;
  • Secretaria de Saúde;
  • Secretarias da Mulher;
  • Assistência Social;
  • municípios e demais serviços especializados.

A major ressaltou que a Polícia Militar, na maioria das ocorrências, é o primeiro órgão a chegar ao local e, muitas vezes, representa a primeira oportunidade de acolhimento da vítima. Entretanto, ela enfatizou que retirar definitivamente uma mulher da situação de violência depende do funcionamento articulado de toda a estrutura do Estado.

Policiais recebem treinamento contínuo para atendimento humanizado

Questionada sobre a atuação de policiais homens em ocorrências de violência doméstica, Carolina Zancan afirmou que existe um preconceito em relação a esse tema, mas destacou que os profissionais recebem capacitação permanente. Segundo ela, o atendimento às ocorrências de violência doméstica e familiar está entre os serviços de emergência mais frequentes realizados pela Polícia Militar. Por isso, os policiais passam regularmente por cursos, treinamentos e nivelamentos voltados ao atendimento dessas ocorrências.

Os profissionais capacitados posteriormente compartilham os conhecimentos adquiridos com os demais integrantes das unidades policiais. A coordenadora ressaltou que muitos homens também cresceram em ambientes marcados pela violência e compreendem a gravidade desse tipo de situação. Outros tiveram experiências familiares saudáveis e sabem reconhecer quando um relacionamento ultrapassa os limites do respeito. Somadas à experiência adquirida na atividade policial e aos treinamentos constantes, essas vivências permitem que os policiais realizem um atendimento humanizado, acolhedor e baseado na orientação correta às vítimas.

Casos mais complexos são encaminhados para equipes especializadas

A coordenadora explicou ainda que nem todas as ocorrências exigem o mesmo tipo de intervenção. Enquanto algumas situações demandam apenas orientação inicial e encaminhamento para a rede de proteção, outras apresentam elevado grau de complexidade e necessitam de acompanhamento especializado. Nesses casos, os policiais encaminham as ocorrências para as equipes responsáveis pelo atendimento especializado da Patrulha Maria da Penha e demais setores competentes.Segundo Carolina Zancan, a existência de diferentes níveis de atendimento permite que cada mulher receba o suporte adequado às suas necessidades, fortalecendo o enfrentamento da violência doméstica e a

RSS
Follow by Email
YouTube
YouTube