A cena é comum entre universitários: aulas durante o dia, trabalhos e leituras à noite e, nos intervalos, horas diante do celular. Para conseguir acompanhar o ritmo, dormir menos ou aumentar o consumo de café e energéticos pode parecer uma solução. O problema é que, quando essa rotina se torna frequente, o efeito sobre o aprendizado pode ser justamente o contrário do esperado. Sono, saúde mental, atividade física e hábitos cotidianos estão relacionados ao funcionamento cognitivo. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026, reunindo mais de 71 mil universitários, encontrou associação entre maior exposição às telas e problemas como pior qualidade do sono, ansiedade, estresse e redução do desempenho acadêmico.
Para a médica Psiquiatra, presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria (APpsiq) e docente do curso de Medicina da Afya Centro Universitário de Pato Branco, Dra. Ana Camila Gomes Cabeço, é importante compreender que aprender não depende apenas do número de horas dedicadas aos livros ou às aulas. O cérebro também precisa de condições adequadas para processar e consolidar as informações recebidas. “Durante a vida universitária existe uma cobrança muito grande por produtividade, e muitas vezes o estudante tenta compensar a falta de tempo reduzindo as horas de sono. Só que dormir não é um período em que o cérebro simplesmente ‘desliga’. O sono participa de processos fundamentais para a consolidação da memória e da aprendizagem. Quando ele é insuficiente ou de baixa qualidade, podemos perceber dificuldade de concentração, atenção e retenção das informações”, explica.
Celular até a hora de dormir
Outro hábito que merece atenção é a presença constante das telas. O celular deixou de ser apenas uma ferramenta de entretenimento e faz parte da própria rotina acadêmica: é utilizado para estudar, assistir a aulas, conversar com colegas e acessar materiais. O problema está principalmente na dificuldade de estabelecer momentos de desconexão. De acordo com a médica, além do tempo total de exposição, utilizar o aparelho até pouco antes de dormir pode manter o estudante conectado a uma sequência de estímulos justamente no período em que deveria se preparar para o descanso. “O celular reúne informação, entretenimento, mensagens e redes sociais em um mesmo lugar. Essa sucessão constante de estímulos pode dificultar a desaceleração no fim do dia. Por isso, é interessante criar uma rotina para o sono, reduzir os estímulos à noite e evitar levar para a cama a mesma intensidade de informações que acompanhou o estudante durante o dia”, orienta a Dra. Ana Camila.
Cafeína não substitui descanso
A médica Psiquiatra e docente do curso de Medicina da Afya de Pato Branco, ressalta que o café e outras bebidas com cafeína em doses elevadas ou consumidas próximo ao horário de dormir, podem contribuir para um ciclo no qual o universitário dorme mal, acorda cansado e aumenta novamente o consumo de estimulantes para conseguir acompanhar as atividades. “Não significa que todo estudante precise abandonar o café. A questão é observar quantidade, horário e a própria resposta do organismo. Usar cafeína continuamente para compensar noites mal dormidas não resolve a causa do cansaço. Quando isso vira um padrão, é importante reorganizar a rotina e entender por que o sono não está sendo suficiente”, destaca a Dra. Ana Camila.
Ansiedade também pode afetar os estudos
Outro ponto levantado pela médica é a pressão por boas notas, prazos, provas, estágio, decisões profissionais e, para muitos estudantes, a necessidade de conciliar trabalho e graduação, o que pode aumentar a sobrecarga emocional. A ansiedade pode se manifestar de diferentes maneiras e, quando intensa ou persistente, pode dificultar a capacidade de manter a atenção em uma atividade. “Para lembrar de um conteúdo, primeiro precisamos conseguir prestar atenção nele. Um estudante muito ansioso, preocupado ou mentalmente sobrecarregado pode ter dificuldade justamente nessa primeira etapa. Ele lê várias vezes a mesma página e sente que não consegue guardar a informação. Por isso, quando dificuldades de concentração começam a ser frequentes e vêm acompanhadas de ansiedade, alterações do sono ou prejuízo na rotina, vale olhar para a saúde como um todo”, pontua a Dra. Ana Camila.
Estudar mais nem sempre significa aprender mais
Para os universitários, o desafio passa por encontrar equilíbrio entre desempenho acadêmico e cuidados básicos com a saúde. Manter horários de sono mais regulares, evitar transformar noites em períodos habituais de estudo, estabelecer limites para as telas, praticar atividade física, organizar pausas e observar o consumo de cafeína são medidas que podem contribuir para uma rotina mais saudável. “O estudante precisa entender que cuidar do sono, da alimentação, da atividade física e da saúde mental não é perder tempo. Esses cuidados fazem parte do próprio processo de aprendizagem. O objetivo não deve ser apenas permanecer mais horas estudando, mas criar condições para que o cérebro consiga aproveitar melhor esse período”, finaliza a Dra. Ana Camila Cabeço, Psiquiatra e docente do curso de Medicina da Afya Centro Universitário de Pato Branco.

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