A fala da professora Nilvânia Aparecida de Mello — Engenheira Agrônoma, docente da UTFPR e responsável pela Divisão 4 da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo — destaca com clareza porque o solo deve ser compreendido, valorizado e protegido tanto em ambientes urbanos quanto rurais. Em uma apresentação aos vereadores de Pato Branco, ela trouxe reflexões fundamentais sobre o papel do solo para a vida humana, para o equilíbrio ambiental e para o desenvolvimento sustentável.
Uma data para celebrar um elemento essencial: o Dia Mundial do Solo
A professora iniciou agradecendo a oportunidade de falar aos vereadores e manifestou seu orgulho como pato-branquense. Compartilhou também que, após sua participação na sessão, seguiria para compromissos em Curitiba e, em seguida, viajaria à França, atendendo a um convite da Universidade de Toulouse para tratar exatamente do mesmo tema: a importância do solo. O motivo da visita à Câmara é significativo: 5 de dezembro é o Dia Mundial do Solo, uma data pouco conhecida pela população, mas estabelecida para lembrar a relevância desse recurso fundamental. “Por que comemorar o solo?”, ela provocou. “Não é só terra, não é sujeira que escondemos sob o porcelanato.” Pelo contrário: o solo presta serviços ambientais, culturais, sociais e até religiosos, muito além do que costumamos perceber.
O solo como base da vida e centro do equilíbrio ambiental
A temática do solo não é recente, mas ganhou especial atenção em 2015, quando a FAO — órgão das Nações Unidas — estabeleceu tanto o tema “funções do solo” para o Dia Internacional do Solo quanto a Década do Solo, que se encerra justamente em 5 de dezembro de 2025.
E por que tamanha atenção? Porque o solo:
- é o maior reservatório de biodiversidade do planeta — um punhado de terra pode abrigar mais vida do que um quilômetro quadrado de floresta amazônica;
- é indispensável à produção agrícola;
- mantém o equilíbrio ecológico, sobretudo no que se refere à qualidade da água e ao bom funcionamento do ciclo hidrológico;
- participa diretamente do particionamento dos ciclos naturais, influenciando inclusive fenômenos relacionados à mudança climática.
Ao citar tragédias ambientais recentes — enchentes no Rio Grande do Sul, desastres no Paraná e tempestades severas como a chuva de granizo em Ponta Grossa — a professora reforçou que esses eventos têm profunda ligação com a forma como tratamos o solo.
O solo como ligação entre as esferas da Terra
Recordando o que aprendemos ainda no ensino fundamental, ela explica que o planeta é composto pelas esferas: atmosfera, hidrosfera, litosfera e biosfera. O solo, porém, é o elo que conecta todas elas. Ele liga as rochas (litosfera) à água, ao ar e aos seres vivos — e essa ligação é o que torna possível nossa própria existência. Essa relação íntima entre seres humanos e solo aparece inclusive em tradições religiosas e culturais ao redor do mundo. A professora cita a narrativa bíblica do barro que dá origem a Adão — termo derivado de dama, que significa húmus, a parte mais fértil da terra. Embora trate o tema de forma simbólica, ela ressalta: essa visão não é exclusiva do catolicismo. Diversas civilizações compreendem o solo como origem da vida humana.
Ciclo hidrológico: sem solo de qualidade, não há água de qualidade
Entre as inúmeras funções do solo, a professora destaca uma que costuma ser desconhecida pela maior parte da população: o solo é imprescindível para a renovação da água doce. Se o solo é degradado, a água também será. A água que circula na superfície da Terra — aquela que consumimos — depende diretamente da capacidade do solo de absorver, filtrar e liberar água de forma equilibrada. Assim, proteger o solo significa proteger a água.
Solos saudáveis para cidades saudáveis: o impacto das calçadas
Em uma feliz coincidência, o tema do Dia Mundial do Solo de 2025 é “Solos saudáveis para cidades saudáveis” — justamente no dia em que os vereadores de Pato Branco discutiam a regulamentação das calçadas do município. A professora reforçou que, ao debater calçadas, não se fala apenas de acessibilidade, estética ou materiais. Discute-se também a taxa de impermeabilização do solo urbano. Calçadas mal planejadas, completamente impermeáveis, contribuem para:
- enchentes;
- secas prolongadas;
- interrupção da infiltração natural da água;
- esgotamento dos reservatórios subterrâneos.
Ela cita o exemplo de São Paulo: ora em enchente, ora em crise hídrica, como a histórica seca do Sistema Cantareira. Quando o solo não absorve água, o ciclo natural se rompe.
Erosão: um problema também urbano
Outro ponto crucial é a erosão. Embora frequentemente associada ao meio rural, ela atinge igualmente ambientes urbanos e seus efeitos chegam inevitavelmente às cidades. Calçadas mal localizadas, bairros sem planejamento e cobertura inadequada do solo intensificam o processo erosivo. Para ilustrar, a professora comparou o solo à pele humana. Assim como a pele mantém nossa integridade e protege nossas funções vitais, o solo é a “pele do planeta”. Cobri-lo inadequadamente — seja com calçadas problemáticas, seja com práticas agrícolas incorretas — compromete todo o sistema.
Os Custos da Degradação e a Urgência da Reconexão com o Solo
A degradação do solo sempre cobrou seu preço, mas, no passado, esse custo se manifestava de forma mais simples — muitas vezes, apenas na conta da água. Tratar a água turva, carregada de sedimentos, era caro. No entanto, hoje a situação é muito mais grave e complexa: a erosão deixou de ser apenas um problema ambiental e se tornou uma ameaça direta à segurança e à qualidade de vida das cidades. O mais preocupante é que grande parte da população já não reconhece mais o que é um processo erosivo. Seja um agricultor, uma dona de casa ou um professor, muitos não conseguem identificar quando o solo está sendo destruído ou compreender a gravidade disso. E, como consequência, a terra que escapa das partes mais altas das bacias hidrográficas carrega consigo sedimentos, contaminantes e nutrientes — e tudo isso inevitavelmente se deposita em outro lugar, gerando novos problemas.
Nas cidades, sabemos exatamente onde esse material vai parar. Imagens recentes, que todos desejamos não voltar a ver com frequência, mostram claramente os impactos da má gestão do solo: assoreamento, enchentes, contaminação da água e danos à infraestrutura urbana. A ausência de planejamento adequado, tanto no meio rural quanto no urbano, resulta diretamente nesses cenários.
O Fechamento da Década do Solo e o Chamado da FAO
Em 2025, a FAO encerra a década dedicada ao Dia Mundial do Solo, iniciada em 2015 com o tema das funções do solo. Agora, a mensagem final é clara e contundente: não existe cidade segura sem solo de qualidade. Uma área urbana só pode ser saudável e resiliente se estiver cercada por solos capazes de exercer plenamente suas funções ambientais — filtragem de água, suporte à vegetação, regulação hídrica e sustentação da biodiversidade. Se a sociedade se afasta desse princípio, abre caminho para tragédias anunciadas. Os problemas ambientais e urbanos tornam-se inevitáveis. E quem conhece os bairros de Pato Branco sabe disso melhor do que ninguém.
Reflexões do Território: Saúde, Solo e Comunidade
Ao analisar bairros como São João e São Francisco — estudados por meio do Programa de Desenvolvimento Regional — observou-se uma relação inquietante: os tipos de doenças que estão aumentando na cidade acompanham, de forma muito clara, a degradação dos solos ao redor. Essa percepção, inicialmente individual, remete ao famoso discurso do chefe indígena Seattle (ou “Sioux”, na fala da transcrição): “O que acontece à terra, acontece aos filhos da terra.”
Mais de 60 anos depois, essa frase continua profundamente atual. As alterações no solo, no uso da terra e no ambiente físico ao redor têm impacto direto na saúde da população. Basta observar tendências recentes para perceber isso.
Reconectar-se com o Solo: Um Caminho Indispensável
A mensagem final é um convite — e um alerta. É preciso recuperar nossa conexão com o solo. Quanto mais uma comunidade compreende seu solo, interage com ele e o reconhece como parte fundamental da vida, melhor esse solo funciona. E, consequentemente, melhor funciona também a sociedade que dele depende. Isso exige voltar a estudar o solo, a explorá-lo, a tocá-lo, a brincar com a terra. Exige resgatar o entendimento de que solo não é apenas “chão”, mas um elemento vivo, complexo e essencial. Se conseguirmos isso, deixaremos de falar em “meio ambiente” — expressão que sugere algo incompleto — e passaremos a falar em ambiente inteiro. Porque o solo é parte fundamental desse ambiente, mesmo quando insistimos em não o ver.

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