Tratamentos contra o câncer podem provocar diferentes alterações na pele, como ulcerações, dermatites, ressecamento, descamação e radiodermites. Em pacientes que estão em cuidados paliativos, essas condições podem representar mais uma fonte de desconforto em um momento de grande vulnerabilidade. Foi a partir dessa realidade, que a professora Luane Paula de Souza, docente dos cursos de Fisioterapia e Tecnologia em Estética e Cosmética da Afya Centro Universitário de Pato Branco, decidiu investigar como a área de Estética e Cosmética poderia contribuir, de forma complementar e integrada à equipe multiprofissional, para o cuidado desses pacientes.
O estudo foi desenvolvido a partir do interesse da professora em aproximar a formação acadêmica da realidade encontrada nos serviços de saúde. Luane buscou levar os estudantes para uma experiência que ultrapassasse a sala de aula e permitisse compreender, na prática, os diferentes aspectos envolvidos no cuidado de uma pessoa em tratamento oncológico. A proposta partiu de uma perspectiva ampliada de saúde, considerando não apenas a condição clínica, mas também conforto, bem-estar, acolhimento e qualidade de vida.
Pesquisa foi realizada diretamente com paciente
A professora Luane conta que a investigação foi realizada com uma paciente adulta em tratamento oncológico na Fundação Sudoestina de Combate ao Câncer, encaminhada pela equipe de cuidados paliativos. Ela apresentava uma lesão cutânea decorrente dos efeitos do tratamento. Depois da aprovação da pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa e da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, a paciente passou a ser acompanhada pelas pesquisadoras.
“O trabalho adotou o formato de estudo de caso e utilizou diferentes instrumentos para acompanhar a evolução da paciente, entre eles a Escala de Avaliação de Sintomas de Edmonton (ESAS), registros fotográficos e a mensuração da lesão. A intervenção envolveu a aplicação tópica de um blend de óleos essenciais, além de orientações para que os cuidados também fossem realizados em casa. Foram feitas duas intervenções presenciais, com intervalo de uma semana”, conta Luane.
O resultado que mais chamou a atenção das pesquisadoras foi a cicatrização da lesão localizada na região occipital, observada após uma semana de utilização do blend, aplicado duas vezes ao dia, associado às orientações de cuidado domiciliar. “A formulação utilizada reunia óleos essenciais de lavanda, alecrim-do-campo e erva-baleeira, associados ao óleo vegetal de semente de uva, em concentração de 1%”, conta a professora.
Apesar do resultado considerado relevante e promissor, Luane ressalta que o estudo precisa ser interpretado com cautela. “Por se tratar de uma pesquisa com apenas uma participante, não é possível afirmar que o mesmo efeito será observado em outros pacientes. Além disso, a Escala de Avaliação de Sintomas de Edmonton não apresentou alterações entre as avaliações inicial e final, o que impede concluir, a partir dos dados quantitativos, que houve melhora dos sintomas ou da qualidade de vida”, pontua ela.
Mais do que tratar uma lesão, olhar para a pessoa
Para a professora, um dos aspectos mais importantes da experiência foi justamente perceber que o cuidado não se limita à intervenção realizada sobre a pele. “O contato próximo com a paciente e seu acompanhante possibilitou identificar demandas emocionais e sociais que poderiam passar despercebidas em uma abordagem exclusivamente clínica. A experiência reforçou a importância da escuta ativa, do acolhimento e de um atendimento individualizado”, acrescenta Luane.
Essa perspectiva também esteve presente na formação dos estudantes envolvidos no trabalho. Segundo Luane, a experiência permitiu que eles compreendessem que o paciente não pode ser reduzido à doença ou à lesão apresentada. “Existe uma pessoa, uma família e uma realidade social que precisam ser consideradas durante o processo de cuidado. A pesquisa transformou a iniciação científica em uma experiência concreta de aprendizagem, envolvendo investigação, análise crítica, responsabilidade ética e contato com uma situação real de saúde”, destaca ela.
A discussão também amplia o olhar sobre as possibilidades de atuação da Estética e Cosmética dentro de equipes multidisciplinares. Na avaliação da professora, a área pode contribuir de maneira complementar em aspectos relacionados à integridade e aos cuidados com a pele, ao bem-estar e à autoimagem, desde que sua atuação respeite as competências profissionais, as condições clínicas do paciente e esteja articulada com os demais integrantes da equipe de saúde.
Reconhecimento internacional
O trabalho ganhou ainda mais visibilidade ao ser apresentado no XII Fórum Internacional de Inovação Acadêmica do Consórcio STHEM, onde recebeu menção honrosa. Para Luane, o reconhecimento representa a valorização de uma proposta que procura integrar teoria, prática, pesquisa e humanização, além de destacar a participação dos estudantes na construção do conhecimento.
“A conquista também evidencia a produção científica desenvolvida dentro da Afya de Pato Branco e o potencial de projetos que nascem a partir de problemas concretos encontrados na comunidade. A pesquisa contou com o incentivo institucional à produção científica. Essas iniciativas possibilitam que professores e estudantes desenvolvam projetos de forma estruturada e tenham contato com diferentes etapas da produção científica”, destaca a professora.
Próximos passos
O resultado também abre espaço para novas perguntas. Entre as possibilidades de continuidade estão pesquisas com um número maior e mais diversificado de participantes, diferentes tipos de lesões cutâneas, pacientes submetidos à radioterapia e períodos mais longos de acompanhamento. A ampliação dos estudos poderá permitir uma avaliação mais abrangente não apenas da evolução das lesões, mas também de aspectos relacionados ao conforto, aos sintomas e à percepção dos próprios pacientes.
Segundo Luane, a principal contribuição do trabalho está em mostrar que cuidar também significa olhar para aquilo que ultrapassa a doença. “Em pacientes oncológicos em cuidados paliativos, intervenções aparentemente pequenas podem ganhar significado quando realizadas com conhecimento técnico, responsabilidade, escuta e humanização. É justamente nessa aproximação entre ciência e cuidado que a professora enxerga uma das principais contribuições da experiência para a formação dos futuros profissionais da saúde”, finaliza a professora da Afya de Pato Branco.
Da assessoria

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