Em sessão na Câmara Municipal de Pato Branco, a professora Julia Dambrós Marçal, do curso de Direito do Centro Universitário AFYA, apresentou um recorte de sua tese de doutorado intitulada “Entre Registros e Silêncios: uma análise interseccional e decolonial sobre o acesso à justiça das mulheres em situação de violência”. A pesquisadora destacou a gravidade e a atualidade do tema, ressaltando o aumento dos casos de violência doméstica e os desafios enfrentados pelas vítimas para denunciar.
Logo no início, a professora contextualizou que a violência contra a mulher não é um problema restrito ao Brasil. Dados recentes indicam que, na América Latina, ao menos 11 mulheres são mortas de forma violenta por dia. No cenário nacional, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que, em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios — uma média de quatro mortes diárias. No Paraná, o estado ocupa o quarto lugar no ranking nacional, com 109 casos. Além dos números alarmantes, Julia enfatizou a subnotificação: cerca de 51% das mulheres que sofrem violência não procuram as autoridades. “Os dados que temos não representam a totalidade do problema”, alertou.
A pesquisa, iniciada em 2023 no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da UTFPR, analisou o fenômeno da violência doméstica em Pato Branco sob duas abordagens: qualitativa e quantitativa. Na primeira, foram ouvidas 18 mulheres atendidas por instituições locais. Na segunda, foram examinados boletins de ocorrência registrados entre 2021 e 2024, com foco nos crimes de ameaça e lesão corporal — os mais recorrentes. Os resultados mostram crescimento significativo nos registros. Os casos de ameaça passaram de 208 em 2021 para 490 em 2024, enquanto as ocorrências de lesão corporal subiram de 199 para 337 no mesmo período.
A análise também revelou desigualdades importantes. Embora a maioria dos registros seja feita por mulheres brancas — refletindo a composição demográfica local —, há uma sobrerrepresentação proporcional de mulheres pretas e pardas, indicando maior vulnerabilidade. Já entre mulheres indígenas e amarelas, os baixos números sugerem alta subnotificação. Outro ponto destacado foi a concentração territorial da violência. Os bairros das regiões sul e oeste, como Alvorada, São Cristóvão, Planalto e São João, apresentam os maiores índices. Segundo a pesquisadora, esses dados devem orientar políticas públicas, especialmente no que diz respeito ao acesso a serviços de proteção e justiça.
No recorte por escolaridade, a maioria das vítimas possui ensino fundamental ou médio, o que pode estar relacionado à maior precarização do trabalho e dependência econômica — fatores que dificultam o rompimento do ciclo de violência. Em relação à idade, mulheres entre 18 e 39 anos concentram a maior parte dos registros. A violência, segundo o estudo, costuma começar de forma psicológica e evoluir para agressões físicas, especialmente após o início da convivência com o agressor.
A professora também chamou atenção para o fato de que a violência ocorre majoritariamente no ambiente privado, embora haja uma tendência recente de expansão para espaços públicos. Além disso, os casos são mais frequentes nos fins de semana, período de maior convivência familiar. Júlia destacou ainda que a denúncia raramente ocorre no primeiro episódio de violência, o que evidencia a complexidade do enfrentamento por parte das vítimas. Encerrando sua fala, a pesquisadora reforçou a importância do papel do poder público municipal na formulação de políticas específicas. “A violência contra as mulheres é um tema de interesse local e exige respostas articuladas e eficazes”, afirmou, convidando os vereadores a aprofundarem o debate sobre o tema.
Dados sobre violência contra mulheres
América Latina
Média de 11 mulheres mortas por dia de forma violenta.
Brasil
1.568 feminicídios em 2025
Média de 4 mortes por dia
Paraná
4º lugar no ranking nacional de feminicídios
109 casos registrados
Subnotificação
51% das mulheres não denunciam a violência (DataSenado)
Pato Branco (2021–2024)
Crescimento dos registros
Ameaça
2021: 208 casos
2024: 490 casos
Lesão corporal
2021: 199 casos
2024: 337 casos
Indica aumento consistente da violência, especialmente psicológica (ameaça)
Perfil das vítimas (principais marcadores)
Raça
Maioria dos registros: mulheres brancas (proporcional à população)
Maior vulnerabilidade proporcional:
mulheres pretas e pardas
Baixa notificação:
mulheres indígenas e amarelas
Localização (bairros com mais casos)
Região Sul:
Alvorada
São Cristóvão
Região Oeste:
Planalto
São João
Concentração em áreas mais vulneráveis
Escolaridade
Maioria:
Ensino fundamental (completo/incompleto)
Ensino médio (completo/incompleto)
Relação com:
trabalho precarizado
dependência econômica
Idade
Maior incidência:
18 a 29 anos
30 a 39 anos
Violência geralmente:
começa psicológica
evolui para física
Estado civil
Maioria:
solteiras
em união/convivência
Ambiente da violência
Predominantemente:
ambiente privado (doméstico)
Tendência recente:
aumento em espaços públicos
Dias da semana
Maior incidência:
sábado e domingo
Mas ocorre de forma constante durante toda a semana
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