Frei Luiz Iakovacz esteve no Legislativo para apresentar e explicar a importância da Campanha da Fraternidade, um dos projetos pastorais mais conhecidos da Igreja Católica no Brasil. Com mais de seis décadas de história, a iniciativa representa um amplo esforço coletivo de reflexão, conversão e solidariedade, mobilizando dioceses, paróquias e fiéis em todo o país. Durante a apresentação, o religioso destacou que a campanha, que já soma 62 anos de existência, é fruto de um trabalho conjunto da Igreja, desenvolvido ao longo do tempo com o objetivo de mobilizar comunidades em torno de temas sociais relevantes.
A origem da Campanha da Fraternidade
Para compreender a dimensão da campanha, Frei Luiz ressaltou a importância de conhecer sua origem histórica. Na década de 1960, o então papa João XXIII fez um apelo aos bispos de diferentes países para que desenvolvessem, juntamente com suas dioceses e paróquias, um trabalho pastoral integrado. A proposta era que as comunidades católicas refletissem sobre os mesmos temas e buscassem caminhos comuns para enfrentar desafios sociais e espirituais. Segundo Frei Luiz, tratava-se de criar um verdadeiro “trabalho de conjunto”, em que todos pudessem abordar as mesmas questões e pensar soluções coletivas.
Foi nesse contexto que, em 1961, surgiu a Campanha da Fraternidade. A iniciativa nasceu no estado do Rio Grande do Norte, no Nordeste brasileiro, cuja capital é Natal. Mesmo sendo um estado pequeno, foi ali que começou uma das maiores mobilizações pastorais da Igreja no país.
A iniciativa dos três padres e o papel da Cáritas
A ideia partiu de três padres pertencentes às três dioceses do Rio Grande do Norte. Na época, eles atuavam em colaboração com a Cáritas Internacional e com a Cáritas Nacional. A palavra “Cáritas” significa caridade. Trata-se de uma organização da Igreja Católica presente em nível mundial, dedicada a promover ações humanitárias e prestar assistência em situações de necessidade. Frei Luiz citou como exemplo recente o envio de recursos para a Ucrânia durante o período de guerra. Com o inverno rigoroso e a falta de energia elétrica em diversas regiões, a Cáritas, em parceria com o Papa, destinou recursos significativos para a compra de aquecedores, especialmente para casas com crianças.
Além das estruturas internacionais e nacionais, a Cáritas também atua em níveis diocesano e paroquial, formando uma rede ampla de solidariedade. Foi nesse ambiente de ação social e pastoral que surgiu a pergunta que deu origem à campanha: por que não desenvolver um trabalho conjunto dentro das próprias dioceses, mobilizando as comunidades para ações concretas de solidariedade, sem depender exclusivamente da ajuda internacional?
A proposta durante o período da Quaresma
A solução encontrada pelos três padres foi organizar uma mobilização durante o período da Quaresma, que dura cinco semanas. Nesse tempo, todas as comunidades refletiriam sobre um mesmo tema, sempre tendo Cristo como centro da mensagem. Ao mesmo tempo, seria realizada uma ação prática de solidariedade: a chamada Coleta da Solidariedade. Esse modelo, criado nos anos 1960, permanece praticamente o mesmo até hoje. A campanha possui um período definido:
- Início: Quarta-feira de Cinzas
- Encerramento: Domingo de Ramos, quando ocorre a Coleta da Solidariedade
Apesar de acontecer nesse intervalo específico do calendário litúrgico, Frei Luiz destacou que o espírito da campanha deve permanecer vivo durante todo o ano.
A expansão da campanha pelo Brasil
A primeira experiência prática ocorreu em 1962, quando as três dioceses do Rio Grande do Norte adotaram a proposta. O resultado financeiro foi considerado pequeno, mas o mais importante havia sido conquistado: a semente havia sido plantada. No ano seguinte, em 1963, treze dioceses da região Nordeste passaram a participar da campanha durante a Quaresma. Em 1964, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) assumiu oficialmente a iniciativa, mantendo os princípios originais: a Campanha da Fraternidade e a Coleta da Solidariedade.
A partir daí, o projeto foi sendo implantado gradualmente em todo o território nacional. Atualmente, está presente em mais de 273 dioceses e cerca de 12 mil paróquias, envolvendo milhares de comunidades. Segundo Frei Luiz, manter uma mobilização dessa dimensão em um país de tamanho continental como o Brasil não é uma tarefa simples. No entanto, o fato de a campanha continuar ativa por tantas décadas demonstra a força e a relevância da proposta.
O tema anual e a inspiração bíblica
Um elemento fundamental da Campanha da Fraternidade é a escolha de um tema social a cada ano, sempre acompanhado por um lema retirado da Bíblia. No ano citado durante a apresentação, o tema foi Fraternidade e Moradia, com o lema inspirado no Evangelho de João (1,14): “Cristo veio morar entre nós.” Frei Luiz destacou que Jesus não veio ao mundo com atitude de poder ou imposição. Pelo contrário, nasceu em um presépio, símbolo de simplicidade e humildade. Essa imagem inspira a reflexão sobre a dignidade da moradia e as condições de vida das pessoas.
O verdadeiro sentido da Coleta da Solidariedade
Durante sua fala, Frei Luiz enfatizou a necessidade de resgatar o verdadeiro espírito da Coleta da Solidariedade.Ele explicou que a coleta não deve ser vista apenas como uma contribuição financeira espontânea. Ela deve ser fruto de um gesto consciente de conversão durante a Quaresma. Para ilustrar, apresentou exemplos simples do cotidiano. Uma família que costuma sair para almoçar fora todos os fins de semana pode decidir renunciar a uma dessas refeições durante as cinco semanas da Quaresma. O valor que seria gasto nesse momento de lazer pode então ser destinado à coleta realizada no Domingo de Ramos.
Da mesma forma, uma pessoa que fuma ou consome bebidas alcoólicas pode optar por reduzir esse consumo durante o período quaresmal e doar o valor economizado. Segundo Frei Luiz, o importante é que a contribuição seja feita com alegria, como fruto de uma renúncia voluntária. Por isso, a iniciativa recebe o nome de Coleta da Solidariedade. Ele reforçou que a coleta não é destinada a obras de construção ou viagens, mas exclusivamente a projetos sociais ligados ao tema da campanha daquele ano. Essa prática está profundamente ligada ao significado da Quaresma, período tradicional de penitência, reflexão e conversão espiritual.
Como os recursos são distribuídos
Com a participação de milhares de paróquias em todo o país, Frei Luiz explicou como ocorre a distribuição dos recursos arrecadados. O dinheiro coletado em cada paróquia é enviado para a respectiva diocese. A divisão ocorre da seguinte forma:
- 60% permanecem na diocese
- 40% são enviados à CNBB
Na Diocese de Palmas e Francisco Beltrão, por exemplo, participam 47 paróquias. Na Paróquia São Pedro, a coleta do ano anterior somou R$ 11.604,00, resultado da contribuição das diversas comunidades. Todo esse valor foi encaminhado à diocese, onde se somou às demais arrecadações.
Investimentos realizados na diocese
Somando as contribuições das 47 paróquias da diocese, o total arrecadado chegou a aproximadamente R$ 169.960,00, valor próximo de R$ 170 mil. Esse recurso foi aplicado em projetos relacionados ao tema da campanha do ano anterior, que tratava da Fraternidade e Ecologia Integral, com o lema: “Deus viu que tudo o que criou era bom.”
Entre os projetos contemplados estão:
- Projeto Guardiões das Águas – investimento de R$ 30 mil
- Promovendo a Cultura do Cuidado com a Natureza – R$ 20 mil
- Projeto Jardim Maria, em Francisco Beltrão
- Projeto Restaurando a Criação, em Bom Sucesso
- Projeto de Coleta Seletiva e Cuidado, em Saudade do Iguaçu
- Revitalização do Bosque, em Palmas
Todas essas iniciativas foram voltadas à preservação ambiental e à promoção de uma relação mais responsável com a natureza.
O fundo nacional administrado pela CNBB
Além dos recursos utilizados nas dioceses, os 40% enviados à CNBB compõem um fundo nacional destinado ao financiamento de projetos em todo o Brasil. No período citado, esse fundo alcançou aproximadamente R$ 7.236.000,00. A administração desse valor é feita por um Conselho Gestor composto por nove integrantes:
- dois bispos
- cinco presbíteros (padres)
- dois profissionais especializados em elaboração e avaliação de projetos
Durante o processo de seleção, foram apresentados 779 projetos ligados à temática da ecologia, dos quais 234 foram aprovados para receber financiamento. Segundo Frei Luiz, os recursos são direcionados prioritariamente às regiões onde há maior necessidade. Além disso, os responsáveis pelos projetos precisam prestar contas da utilização do dinheiro. Caso não apresentem essa prestação de contas, novos projetos do mesmo grupo deixam de ser considerados nos anos seguintes.
Como são definidos os temas da campanha
Outro aspecto destacado durante a apresentação foi o processo de construção da Campanha da Fraternidade. Ao final de cada edição, grupos e comunidades realizam avaliações sobre o desenvolvimento da campanha e enviam suas contribuições para os responsáveis pela organização nacional. Muitas das sugestões de temas surgem justamente dessas avaliações feitas na base das comunidades. Quando um tema é definido — como ocorreu no caso da Fraternidade e Moradia — o conselho responsável mobiliza diversas pessoas para a construção da campanha. Entre as atividades estão:
- elaboração do texto-base, que analisa a realidade social do país
- produção do cartaz oficial da campanha
- criação do hino da Campanha da Fraternidade, cuja letra é composta e depois musicada por músicos convidados
- distribuição de mais de 20 subsídios pastorais para auxiliar as comunidades
O texto-base, por exemplo, reúne dados e estudos sobre o tema escolhido. No caso da moradia, Frei Luiz citou que pesquisas apontam que cerca de 7 milhões de famílias no Brasil não possuem casa própria. Essas informações servem como ponto de partida para a reflexão social e pastoral proposta pela campanha.
A reflexão bíblica sobre a moradia
Além da análise da realidade social, a Campanha da Fraternidade sempre inclui uma reflexão bíblica sobre o tema escolhido.Frei Luiz citou uma passagem do profeta Isaías que expressa o sonho de Deus para a humanidade: “Construirão suas casas e nelas habitarão.” Ele destacou que essa visão bíblica aponta para uma vida digna e tranquila. No entanto, muitas pessoas vivem situações difíceis, especialmente idosos que precisam dividir sua renda entre medicamentos e o pagamento de aluguel. Nessas circunstâncias, questiona-se se é possível alcançar uma velhice realmente tranquila e feliz. A reflexão proposta pela campanha busca justamente despertar a consciência sobre essas realidades.
Tema da próxima Campanha da Fraternidade
Ao final da apresentação, Frei Luiz também mencionou que o tema da próxima edição da campanha já está definido. O assunto escolhido será Fraternidade e o cuidado com as crianças, acompanhado pelo lema inspirado nas palavras de Jesus: “Quem acolhe o irmão, acolhe a mim.” A proposta, assim como nas edições anteriores, será promover reflexão, mobilização e ações concretas em favor de uma sociedade mais justa e solidária.
Avaliação, participação da base e construção coletiva
Outro aspecto importante destacado na apresentação é o destino e o acompanhamento dos recursos arrecadados. O dinheiro obtido por meio da campanha é direcionado justamente para os locais onde há maior necessidade. Esses recursos financiam projetos sociais ligados às realidades mais urgentes da população. No entanto, existe um critério fundamental: a prestação de contas. As iniciativas que recebem apoio precisam demonstrar de forma clara como os recursos foram utilizados. Caso não haja essa prestação de contas, o projeto não é considerado para receber novos recursos no ano seguinte. Esse processo garante transparência e responsabilidade na aplicação das doações.
Além da gestão dos recursos, a Campanha da Fraternidade também se caracteriza por ser um trabalho profundamente participativo. Desde o início, tudo é construído de maneira conjunta. Ao final da Quaresma e da campanha, os grupos que participaram das atividades realizam uma avaliação comunitária. Essas avaliações são enviadas aos responsáveis pela organização nacional da campanha. Esse retorno vindo das comunidades é essencial, pois muitos dos temas abordados ao longo dos anos surgem justamente da base da Igreja, a partir das preocupações e realidades vividas pelas pessoas.
O tema da moradia e a mobilização da comunidade
Quando um tema é escolhido — como o da moradia, abordado no exemplo da transcrição — inicia-se um processo de mobilização em toda a Igreja. O conselho gestor responsável pela campanha envia orientações para todas as dioceses. Entre essas iniciativas está a criação do hino da campanha. Pessoas com talento para composição são convidadas a elaborar a letra. Posteriormente, músicos são chamados para criar a melodia. Dessa forma, a produção do hino envolve diferentes membros da comunidade e reforça o caráter participativo da campanha.
Além disso, há uma ampla produção de materiais de apoio. O conselho gestor elabora mais de vinte subsídios diferentes, destinados a ajudar paróquias, grupos e agentes pastorais a desenvolverem as atividades ao longo da campanha.
O texto-base e a análise da realidade brasileira
Entre todos os materiais produzidos, o mais importante é o texto-base da Campanha da Fraternidade. Ele apresenta uma análise detalhada da realidade brasileira relacionada ao tema escolhido. No caso do tema da moradia, por exemplo, o documento reúne dados e estudos que ajudam a compreender a dimensão do problema. Um dos números citados é o de cerca de 7 milhões de famílias que não possuem casa no Brasil. Esses dados não surgem por acaso: são resultado do trabalho de pesquisadores e especialistas que participam da elaboração do material.
A proposta do texto-base é ajudar a comunidade a refletir sobre três dimensões principais:
- ver a realidade, compreendendo os problemas existentes;
- julgar à luz da fé, buscando orientação na Palavra de Deus;
- agir, promovendo iniciativas concretas de transformação social.
A Palavra de Deus como fundamento
Um elemento que nunca falta na Campanha da Fraternidade é a referência bíblica. A reflexão social sempre é acompanhada por uma leitura à luz das Escrituras. No contexto da discussão sobre moradia, por exemplo, recorda-se a mensagem do profeta Isaías, que muito antes de Jesus já anunciava a esperança de um mundo mais justo: as pessoas construirão suas casas, viverão nelas e poderão alcançar uma velhice digna e feliz.
Essa mensagem provoca uma reflexão profunda. Imagine, por exemplo, um casal idoso que precisa dividir sua renda entre o pagamento de medicamentos e o aluguel. Nessas condições, é possível falar em uma velhice tranquila e feliz? A Campanha da Fraternidade convida a sociedade a refletir justamente sobre essas situações e a buscar caminhos para transformá-las.
Um olhar para o futuro: o tema da próxima campanha
A dinâmica da Campanha da Fraternidade é planejada com antecedência. Enquanto uma campanha ainda está em andamento, o tema do ano seguinte já começa a ser preparado. Segundo a apresentação, o tema escolhido para o próximo ano será “Fraternidade e o cuidado com as crianças”. O lema da campanha será inspirado diretamente nas palavras de Jesus: “Quem acolhe o irmão, acolhe a mim.” Essa escolha reforça o compromisso da Igreja com a promoção da dignidade humana desde a infância, lembrando que cuidar das crianças é também cuidar do futuro da sociedade.
Conclusão
Ao longo de mais de seis décadas de existência, a Campanha da Fraternidade consolidou-se como uma importante iniciativa de mobilização social e reflexão cristã no Brasil. Seu funcionamento envolve comunidades, dioceses, especialistas e agentes pastorais em um processo participativo que começa nas bases da Igreja e se estende por todo o país. Com temas que dialogam com os grandes desafios da sociedade — como a moradia, a justiça social e o cuidado com os mais vulneráveis — a campanha busca unir fé e compromisso social. A cada ano, ela convida os fiéis a olhar para a realidade, refletir à luz do Evangelho e agir de maneira concreta em favor de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.

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